“Lobo do Mar” apresenta capítulos que retratam a relação do detentor do recorde mundial da maior onda alguma vez surfada com aquele que foi o seu país de acolhimento na última meia década. Até as mulheres nazarenas das setes saias são alvo do agradecimento de um dos surfistas mais admirados à escala global.
“Ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro”. Portugal é um dos países em que esta expressão é utilizada, como que uma espécie de guia para a missão a cumprir por cada cidadão durante a sua vida. Garrett McNamara já se havia certificado que o seu nome fosse lembrado, ao bater o recorde do Guinness da maior onda alguma vez surfada. Agora, já tem outro marco que lhe permite assegurar o perdurar do legado: uma biografia que retrata o seu percurso dentro e fora de água.
“Lobo do Mar” é o nome com que a editora portuguesa Marcador lançou, em março, o livro originalmente intitulado “Hound Of The Sea”. Ao longo de 319 páginas, conta a história do surfista, desde os tempos em que ainda bebé de fraldas conseguia fugir de casa sem que ninguém se apercebesse, até receber a prestigiada condecoração Medalha Naval Vasco da Gama, atribuída pelo estado português.
Dois dos capítulos do livro dirigem-se a momentos passados em Portugal, com relatos da integração ao novo quotidiano e da onda de 23,8 metros surfada na Praia do Norte, no inverno de 2011. No texto dedicado aos agradecimentos, McNamara escreve que “a vila da Nazaré e Portugal merecem um livro inteiro de elogios”.
O norte-americano de 49 anos não poupa linhas na hora de contar ao mundo o cenário com que se deparou quando chegou pela primeira vez à Nazaré, há pouco mais de meia década: “A vila estava em dificuldades. A indústria pesqueira estava a passar um mau bocado – as águas locais encontravam-se quase esgotadas – e a economia nacional também não estava bem”, descreve.
Apesar das contingências, recorda todo o apoio que lhe foi prestado “pela gente da Nazaré”, quer por elementos ligados à câmara municipal, bodyboarders, bombeiros e salva-vidas, focando até as mulheres das sete saias, cujas vestimentas descreve.
O cúmulo da generosidade nazarena é apontado à detentora de um restaurante local, a “Mamã Celeste”, a quem agradece por “sempre acreditar em mim e tomar conta de mim como se fosse seu filho”. O restaurante “A Celeste”, na principal avenida local (paralela à Praia da Nazaré) foi o quartel-general onde se preparou a abordagem às ondas gigantes da praia vizinha.
Recordações do impacto da onda
Como muitos portugueses se recordam, as imagens que Jorge Leal recolheu na Praia do Norte, com Garrett McNamara a ser um pequeno ponto de cor numa gigantesca parede azul, percorreram mundo. O feito ainda não tinha sido certificado pelo livro dos recordes do Guinness, quando as fotografias e os vídeos já eram difundidos por órgãos de comunicação como a CNN, ESPN, Sports Illustrated, Huffington Post e Good Morning America.
O espanto era tanto, que houve quem lhe torcesse o nariz: “Estranhamente fui responsabilizado pela inépcia dos jornalistas dos grandes media que cobriram a história. De um modo geral, os comentadores desportivos da CNN não falam de surf, e penso que podem ser desculpados por parecerem parolos quando usam o respetivo jargão [ver caixa], mas muito pessoal do surf achou aquilo execrável”, recorda McNamara.
Independentemente dessa opinião, o Turismo de Portugal “vendeu” essa imagem por todo o mundo, como exemplo dos encantos turísticos que o país tem por revelar. McNamara tem sido, desde 2011, uma espécie de embaixador deste seu país de acolhimento.
Em “Lobo do Mar”, um dos norte-americanos mais portugueses de que há memória imortaliza o seu amor a Portugal e particularmente à vila que o recebeu na região Oeste. Se saltarem diretamente para a página 261, os leitores encontrarão mesmo um capítulo intitulado “Nazaré, Meu Coração”.
































